Almada não está sozinha, mas é o caso mais grave. Porquê? E o que dizem os números nacionais?
Dizer que "Almada é o único problema e o resto do país está bem" é falso. Portugal tem um problema estrutural de água que afeta todo o território, embora com intensidades muito diferentes. O que torna Almada especial é a combinação fatal de fatores que, noutros sítios, existem isoladamente.
| Indicador | Valor (2024) | Interpretação |
|---|---|---|
| Água não faturada em Portugal (média nacional) | ~26,5% | Mais de um quarto de toda a água captada não é faturada — inclui perdas reais (fugas) e aparentes (medição, furtos). A ERSAR classifica isto como "mediano". |
| Volume total perdido (real) em Portugal | 166 milhões m³/ano | Equivalente a 8,3 piscinas olímpicas por hora. Este volume chegaria para abastecer 2,5 milhões de pessoas durante um ano. |
| Perdas totais (reais + aparentes) | 187,3 milhões m³/ano | ERSAR afirma que reduzir 80% destas perdas + reutilizar 10% da água residual tratada geraria uma poupança potencial enorme. |
| Qualidade da água segura | 98,86% | Portugal está no topo europeu em qualidade. A água que chega à torneira é excelente — quando chega. O problema é a quantidade, não a qualidade. |
| Origem subterrânea (média nacional) | 29,6% | A maioria dos concelhos usa água superficial. Almada usa 100% subterrânea — uma anomalia nacional. |
Vários fatores concorrem para tornar Almada o município com maiores perdas de água do país, segundo a APA. Nenhum destes fatores existe isoladamente — é a convergência deles que cria a tempestade perfeita:
A média nacional de uso de água subterrânea para abastecimento público é de 29,6%. Almada está em 100%. Isto significa que não tem barragens, nem albufeiras, nem captação superficial de recurso. Depende exclusivamente do aquífero Tejo-Sado (T3).
Os SMAS Almada foram criados em 1951. Muitas condutas da rede têm 40-50+ anos. A tese de gestão de perdas (NOVA FCT, 2025) estuda especificamente este caso. A APA confirmou que Almada é o município com maiores perdas de água. Condutas antigas significam mais roturas e mais fugas.
Almada passou de 174.030 habitantes (2011) para 202.896 (2024) — um aumento de 16,6% em 13 anos. Mas a infraestrutura de água não acompanhou este crescimento. A pressão demográfica é real e continuada.
A Costa da Caparica é o destino balnear mais próximo de Lisboa (20 minutos). No verão, a população da freguesia multiplica-se. As zonas com maior aumento de consumo (+15% Charneca, +15% Sobreda, +14% Costa) são exatamente as de maior pressão turística. Nenhum outro concelho da Margem Sul tem esta amplitude sazonal.
Almada estende-se desde a beira-rio (Cacilhas, 0m) até à Charneca da Caparica (cota alta) e desce novamente até à Costa da Caparica (praia). Esta diferença altimétrica exige mais estações elevatórias e mais pressão na rede, o que acelera o desgaste das condutas e aumenta o risco de roturas.
As notícias de 2025 já mostravam roturas "de grandes dimensões" e queixas da população. A IL criticava a "ausência de comunicação" já em agosto de 2025. A situação não é nova — é o culminar de anos de alertas ignorados. A tese de 2014 (IST) já modelava perdas na rede de Brielas. O problema é conhecido há mais de uma década.
É verdade que a crise se manifesta no verão. Mas isso não significa que o problema seja apenas sazonal. Eis o ciclo real:
O consumo cai (menos calor, menos turismo). A água dos furos é suficiente para a procura. A rede, apesar de envelhecida, aguenta porque não está no limite. A autarquia não sente pressão para investir. O ciclo de subinvestimento mantém-se.
O consumo dispara (+4,3% este ano, o dobro da média). A população sazonal chega. As temperaturas sobem. A procura ultrapassa a capacidade de extração e de transporte. As condutas antigas, que já funcionavam no limite, rompem. O sistema colapsa.
Agosto 2025: roturas de "grandes dimensões". Fim do verão: a situação normalize-se. Inverno 2025/26: sem investimentos significativos. Julho 2026: crise muito pior que a anterior. Este padrão vai repetir-se enquanto não houver intervenção estrutural.
O presidente da APA foi claro: Almada é o município com maiores perdas de água. Portugal perde 166 milhões m³/ano. Se Almada está no topo, significa que perde muito mais que a média de 26,5%. Cada % de perdas representa milhares de m³ que poderiam abastecer a população sem precisar de mais furos. Reduzir perdas é a solução mais barata e eficaz — mas exige escavar, substituir condutas, investir.
Os SMAS são serviços municipalizados — um modelo que já mostrou fragilidades noutros concelhos (ex: Águas de Coimbra também era SMAS, mas foi transformada em empresa municipal com mais autonomia e capacidade de investimento). A falta de autonomia financeira, a dependência de decisões políticas anuais e a dificuldade em contratar técnicos especializados são problemas estruturais.
O relatório da OCDE (2025) diz que as secas podem tornar-se até 7x mais frequentes e intensas em Portugal. Mas o planeamento dos SMAS parece ainda assente em séries históricas do século XX. O consumo de 2026, quebrando todos os recordes em 75 anos, mostra que os modelos de previsão subestimaram sistematicamente o impacto das alterações climáticas.
Almada está isolada no seu sistema de abastecimento. A Águas do Tejo Atlântico (sistema multimunicipal) fornece água a vários concelhos da região de Lisboa a partir da barragem do Castelo do Bode. Almada nunca aderiu. Uma interligação permitiria ter uma fonte alternativa de água superficial quando os furos não chegam. Esta solução é defendida há anos por especialistas — e nunca foi implementada.
A água em Almada não falta no inverno porque a procura é baixa e o aquífero recarrega. Mas falta no verão porque a capacidade do sistema está permanentemente no limite — e qualquer pico faz colapsar. A diferença para outros concelhos é que esses têm alternativas (barragens, captação superficial, rede mais eficiente, integração regional). Almada não tem nenhuma dessas alternativas.
O problema não é a falta de água. É a falta de um sistema preparado para a procura atual num clima em mudança.
Com base na investigação realizada, apresento soluções organizadas por horizonte temporal e impacto:
Dashboard público online com estado do abastecimento por freguesia, níveis dos depósitos, consumos em tempo real e previsão de cortes. A falta de informação alimenta a desconfiança e o pânico.
Cortes programados e comunicados com 24h de antecedência, por zonas, com prioridade para saúde, escolas e serviços essenciais. Melhor que cortes aleatórios.
Distribuição de água engarrafada para famílias com idosos, crianças ou necessidades especiais nas zonas mais afetadas.
Prioridade máxima. Almada tem as maiores perdas do país. A tese de Gestão de Perdas (NOVA FCT, 2025) e o projeto SMAIS (IA + satélite) já demonstraram o caminho. Escalar urgente.
Ligação ao sistema Águas do Tejo Atlântico (Castelo do Bode), estudo de dessalinização, aproveitamento de água residual tratada.
Penalizar consumos excessivos (>300L/pessoa/dia), recompensar poupança, apoiar instalação de sistemas de reutilização.
Auditoria externa à gestão das últimas décadas: investimentos, manutenção, planeamento, execução orçamental. Resultados públicos.
O modelo de SMAS mostrou fragilidades. Integração num sistema multimunicipal ou transformação em empresa municipal para ganhar escala e capacidade de investimento.
Cenários para 2030-2050, projeções de precipitação, temperatura, população e consumo. Metas vinculativas, não intenções.
Projeto SMAIS (SMAS + UNINOVA + NOVA FCT) — deteção de fugas por satélite, controlo de consumos anómalos, plataforma de decisão. Acelerar e financiar.
Conselho de Água Municipal com cidadãos, associações, técnicos e autarcas. Relatórios trimestrais públicos. A gestão da água não pode ser fechada em gabinetes.
Responsável política pela supervisão dos SMAS. A falta de planeamento estratégico e o estado de degradação da rede são responsabilidade do executivo.
Gestor direto do sistema. Ausência de manutenção preventiva e modernização. A causa estrutural mais imediata está aqui.
Estratégias existem (Água que Une, PENSAARP 2030) mas a implementação é lenta. Deve condicionar financiamento a metas de eficiência.
Cultura de desperdício agrava, mas a responsabilidade maior é de quem gere. É ingénuo culpar os cidadãos quando a rede perde 30%+ da água antes de chegar às torneiras.