1. Consumo sem precedentes

O concelho de Almada atingiu em 2026 o consumo de água mais elevado dos últimos 75 anos. O aumento homólogo de 4,3% representa o dobro da taxa de crescimento anual média das últimas décadas (cerca de 2%).

Disparidade geográfica do consumo

Enquanto zonas como Pragal, Almada, Cacilhas ou Cova da Piedade viram o consumo estabilizar ou descer ligeiramente, outras dispararam: Charneca da Caparica (+15%), Sobreda e Lazarim (+15%), Costa da Caparica (+14%).

Nos dias de maior calor, a procura de água ultrapassou o volume que os SMAS conseguem extrair diariamente das captações (furos), forçando a implementação de um modelo de distribuição rotativa.

2. Dependência de águas subterrâneas

O sistema de abastecimento de Almada depende quase exclusivamente de água subterrânea captada em furos no Sistema Aquífero da Bacia do Tejo-Sado / Margem Esquerda (designado T3).

Aquífero sob pressão

Este aquífero — um dos mais importantes de Portugal, que serve cerca de 1,1 milhões de habitantes — tem registado uma redução consistente dos seus níveis. Estudos académicos (Universidade de Évora, Universidade de Lisboa) documentam o rebaixamento dos níveis piezométricos e a necessidade de furos cada vez mais profundos.

A procura superior à capacidade de extração dos furos existentes é uma das causas imediatas apontadas pela própria autarquia.

3. Onda de calor e procura sazonal

A conjugação de temperaturas extremas com o pico de afluência turística na época balnear gerou um aumento súbito e dramático do consumo. A Costa da Caparica, principal destino balnear da Margem Sul, vê a sua população multiplicar-se no verão.

Os SMAS confirmaram que "a procura está a ser superior à água que conseguimos captar nos nossos furos", atribuindo a situação às temperaturas elevadas e ao aumento significativo da população sazonal.

4. Infraestruturas envelhecidas e falta de investimento

Esta é apontada como uma das causas estruturais mais profundas. De acordo com várias fontes jornalísticas, houve "ausência de planeamento e de manutenção adequados por parte dos SMAS ao longo de várias décadas".

Almada é o município com maiores perdas de água em Portugal

O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) confirmou que Almada apresenta as maiores perdas de água do país, o que inclui roturas, fugas e ineficiências na rede de distribuição. A modernização da rede é urgente.

O Plano de Ação da Câmara inclui a expansão de depósitos de armazenamento, a renovação da rede de distribuição e o acompanhamento técnico permanente das condutas.

5. Contexto nacional: seca estrutural e alterações climáticas

Portugal é um dos países europeus mais vulneráveis às alterações climáticas e à seca. De acordo com a OCDE (2023, 2025):

6. Falhas de planeamento e gestão

Vários partidos políticos e entidades têm apontado falhas de gestão como causa agravante:

Resumo das causas

A crise atual resulta de uma combinação letal de fatores: consumo histórico devido ao calor extremo e turismo, infraestruturas envelhecidas com elevadas perdas de água, dependência de um aquífero sob pressão, décadas de subinvestimento e um contexto nacional de seca estrutural agravada pelas alterações climáticas.